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PENSAR E ENSINAR
O QUE NÃO SE SABE
“Aqui se encontra o
retrato deste mundo. Se você prestar bem atenção, verá que há mapas
dos céus, mapas das terras, mapas do corpo, mapas da alma. Andei por
estes cenários. Naveguei, pensei, aprendi. Aquilo que aprendi e que
sei que está aqui. E estes mapas eu lhe dou como minha herança. Como
ele você poderá andar por estes cenários sem medo e sem sustos,
pisando sempre a terra firme. Dou-lhe o meu saber. ”
Aí o Mestre fica
silencioso, olhando dentro dos olhos do discípulo. Ele quer
adivinhar o que se esconde naquele olhar. Examina os seus pés. Nos
pés sólidos se revela a vocação para andar pelas trilhas conhecidas.
Quem sabe isso é tudo aquilo de que aquele corpo jovem é capaz! Quem
sabe isso é tudo o que aquele corpo jovem deseja! Se assim for,
talvez o melhor fosse encerrar aqui a lição e nada mais dizer.
Mas o Mestre não se
contém e procura, nas costas do seu discípulo, prenúncios de asas -
asas que ele imaginava ter visto como sonho dentro dos seus olhos. O
Mestre sabe que todos os homens são seres alados por nascimento, e
que só se esquecem da vocação pelas alturas quando enfeitiçados pelo
conhecimento das coisas já sabidas.
Ensinou o que sabia.
Agora chegou a hora de ensinar o que não sabe: o desconhecido.
Volta-se então na
direção oposta, o mar imenso e escuro, onde a luz do sol ainda não
chegou.
“É este o seu
destino. Os poetas o tem sabido desde sempre: A solidez da terra,
monótona, parece-nos fraca ilusão. Queremos a ilusão do grande mar,
multiplicada em suas malhas de perigo”. (Cecília Meireles)
“É preciso navegar.
Deixando para trás as terras e os portos dos nossos pais e avós,
nossos navios têm de buscar a terra dos nossos filhos e netos, ainda
não vistas, desconhecidas”. (Nietzsche)
Mas, para estas
aventuras meus mapas não lhe bastam. Todos os diplomas são inúteis.
E inútil todo o saber aprendido. Você terá de navegar dispondo de
uma coisa apenas: seus sonhos. Os sonhos são os mapas dos navegantes
que procuram novos mundos. Na busca de seus sonhos você terá de
construir um novo saber, que eu mesmo não sei... E os seus
pensamentos terão de ser outros, diferentes daquele que você agora
tem.
Seu saber é um
pássaro engaiolado, que pula de poleiro a poleiro e que você leva
para onde quer. Mas dos sonhos saem pássaros selvagens que nenhuma
educação pode domesticar.
Meu saber ensinou-o
a andar por caminhos sólidos. Indiquei-lhe as pedras firmes, onde
você poderá colocar os seus pés, sem medo. Mas o que fazer quando se
tem de caminhar por um rio, saltando de pedra em pedra, cada pedra
uma incógnita? Ah! Como são diferentes o corpo movido pelo sonho e o
corpo movido pelas certezas. “Sobre leves esteios o primeiro salta
para diante: a esperança e o pressentimento põem asas em seus pés.
Pesadamente o segundo arqueja em seu encalço e busca esteios
melhores para também alcançar aquele alvo sedutor, ao qual seu
companheiro mais divino já chegou. Dir-se-ia ver dois andarilhos
diante de um regato selvagem, que corre rodopiando pedras: o
primeiro, com pés ligeiros, salta por sobre ele, usando as pedras e
apoiando-se nelas para lançar-se mais adiante, ainda que, atrás
dele, afundem bruscamente nas profundezas. O outro, a todo instante
detém-se desamparado, precisa antes construir fundamentos que
sustentem seu passo pesado e cauteloso; por vezes isso não dá
resultado e, então não há Deus que possa auxiliá-lo a transpor o
regato. ” (Nietzsche)
Até agora eu o
ensinei a marchar. É isto que se ensina nas escolas. Caminhar com
passos firmes. Não saltar nunca sobre o vazio. Nada dizer que não
esteja construído sobre sólidos fundamentos. Mas, com o aprendizado
do rigor, você desaprendeu o fascínio de ousar. E até desaprendeu
mesmo a arte de falar. Na Idade Média (e como a criticamos!), os
pensadores só se atreviam a falar se solidamente apoiados nas
autoridades. Continuamos a fazer o mesmo, embora os textos sagrados
sejam outros. Também as escolas e universidades têm os seus papas,
seus dogmas, suas ortodoxias. O segredo do sucesso na carreira
acadêmica? Jogar bem o boca de forno, aprender a fazer tudo o que
seu mestre mandar...
Agora o que desejo é
que você aprenda dançar. Lição de Zaratustra, que dizia que para se
aprender a pensar é preciso primeiro aprender a dançar. Quem dança
com as idéias descobre que pensar é alegria. Se pensar lhe dá
tristeza é porque você só sabe marchar, como soldados em ordem
unida. Saltar sobre o vazio, pular de pico em pico. Não ter medo da
queda. Foi assim que se construiu a ciência: não pela prudência dos
que marcham, mas pela ousadia dos que sonham. Todo conhecimento
começa com o sonho. O conhecimento nada mais é que a aventura pelo
mar desconhecido, em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa que
não se ensina. Ele brota das profundezas do corpo, como água brota
das profundezas da terra. Como Mestre, só posso então lhe dizer uma
coisa: “Conte-me seus sonhos, para que sonhemos juntos!”
“Aqui se encontra o
retrato deste mundo. Se você prestar bem atenção, verá que há mapas
dos céus, mapas das terras, mapas do corpo, mapas da alma. Andei por
estes cenários. Naveguei, pensei, aprendi. Aquilo que aprendi e que
sei que está aqui. E estes mapas eu lhe dou como minha herança. Como
ele você poderá andar por estes cenários sem medo e sem sustos,
pisando sempre a terra firme. Dou-lhe o meu saber. ”
Aí o Mestre fica
silencioso, olhando dentro dos olhos do discípulo. Ele quer
adivinhar o que se esconde naquele olhar. Examina os seus pés. Nos
pés sólidos se revela a vocação para andar pelas trilhas conhecidas.
Quem sabe isso é tudo aquilo de que aquele corpo jovem é capaz! Quem
sabe isso é tudo o que aquele corpo jovem deseja! Se assim for,
talvez o melhor fosse encerrar aqui a lição e nada mais dizer.
Mas o Mestre não se
contém e procura, nas costas do seu discípulo, prenúncios de asas -
asas que ele imaginava ter visto como sonho dentro dos seus olhos. O
Mestre sabe que todos os homens são seres alados por nascimento, e
que só se esquecem da vocação pelas alturas quando enfeitiçados pelo
conhecimento das coisas já sabidas.
Ensinou o que sabia.
Agora chegou a hora de ensinar o que não sabe: o desconhecido.
Volta-se então na
direção oposta, o mar imenso e escuro, onde a luz do sol ainda não
chegou.
“É este o seu
destino. Os poetas o tem sabido desde sempre: A solidez da terra,
monótona, parece-nos fraca ilusão. Queremos a ilusão do grande mar,
multiplicada em suas malhas de perigo”. (Cecília Meireles)
“É preciso navegar.
Deixando para trás as terras e os portos dos nossos pais e avós,
nossos navios têm de buscar a terra dos nossos filhos e netos, ainda
não vistas, desconhecidas”. (Nietzsche)
Mas, para estas
aventuras meus mapas não lhe bastam. Todos os diplomas são inúteis.
E inútil todo o saber aprendido. Você terá de navegar dispondo de
uma coisa apenas: seus sonhos. Os sonhos são os mapas dos navegantes
que procuram novos mundos. Na busca de seus sonhos você terá de
construir um novo saber, que eu mesmo não sei... E os seus
pensamentos terão de ser outros, diferentes daquele que você agora
tem.
Seu saber é um
pássaro engaiolado, que pula de poleiro a poleiro e que você leva
para onde quer. Mas dos sonhos saem pássaros selvagens que nenhuma
educação pode domesticar.
Meu saber ensinou-o
a andar por caminhos sólidos. Indiquei-lhe as pedras firmes, onde
você poderá colocar os seus pés, sem medo. Mas o que fazer quando se
tem de caminhar por um rio, saltando de pedra em pedra, cada pedra
uma incógnita? Ah! Como são diferentes o corpo movido pelo sonho e o
corpo movido pelas certezas. “Sobre leves esteios o primeiro salta
para diante: a esperança e o pressentimento põem asas em seus pés.
Pesadamente o segundo arqueja em seu encalço e busca esteios
melhores para também alcançar aquele alvo sedutor, ao qual seu
companheiro mais divino já chegou. Dir-se-ia ver dois andarilhos
diante de um regato selvagem, que corre rodopiando pedras: o
primeiro, com pés ligeiros, salta por sobre ele, usando as pedras e
apoiando-se nelas para lançar-se mais adiante, ainda que, atrás
dele, afundem bruscamente nas profundezas. O outro, a todo instante
detém-se desamparado, precisa antes construir fundamentos que
sustentem seu passo pesado e cauteloso; por vezes isso não dá
resultado e, então não há Deus que possa auxiliá-lo a transpor o
regato. ” (Nietzsche)
Até agora eu o
ensinei a marchar. É isto que se ensina nas escolas. Caminhar com
passos firmes. Não saltar nunca sobre o vazio. Nada dizer que não
esteja construído sobre sólidos fundamentos. Mas, com o aprendizado
do rigor, você desaprendeu o fascínio de ousar. E até desaprendeu
mesmo a arte de falar. Na Idade Média (e como a criticamos!), os
pensadores só se atreviam a falar se solidamente apoiados nas
autoridades. Continuamos a fazer o mesmo, embora os textos sagrados
sejam outros. Também as escolas e universidades têm os seus papas,
seus dogmas, suas ortodoxias. O segredo do sucesso na carreira
acadêmica? Jogar bem o boca de forno, aprender a fazer tudo o que
seu mestre mandar...
Agora o que desejo é
que você aprenda dançar. Lição de Zaratustra, que dizia que para se
aprender a pensar é preciso primeiro aprender a dançar. Quem dança
com as idéias descobre que pensar é alegria. Se pensar lhe dá
tristeza é porque você só sabe marchar, como soldados em ordem
unida. Saltar sobre o vazio, pular de pico em pico. Não ter medo da
queda. Foi assim que se construiu a ciência: não pela prudência dos
que marcham, mas pela ousadia dos que sonham. Todo conhecimento
começa com o sonho. O conhecimento nada mais é que a aventura pelo
mar desconhecido, em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa que
não se ensina. Ele brota das profundezas do corpo, como água brota
das profundezas da terra. Como Mestre, só posso então lhe dizer uma
coisa: “Conte-me seus sonhos, para que sonhemos juntos!”
FONTE:
Ruben Alves
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