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A galinha dos
ovos de ouro
Hamilton
Bueno (*)
O erro é sempre sistêmico.
Juran
O erro do outro parece monstruoso,
até que cometamos um semelhante.
Shakespeare
Deming foi
alerdeado como o grande guru da qualidade em terras japonesas. Mas,
sua grande lição não foi absorvida. Nela encontramos a galinha dos
ovos de ouro!
A Europa,
Américas do Norte e Latina concebem qualidade como o atendimento às
especificações do produto ou serviço. Isso significa que se permite
certo grau de tolerância, não se estimulando a superação das
expectativas do consumidor. Com o Plano Marshall, Deming introduziu
junto aos japoneses uma visão filosófica diferenciada e inovadora,
passando da postura passiva ocidental para uma postura pró-ativa.
Embora estatístico, o mérito
de Deming foi de estratégia. Primeiro descobriu algo que nos parece
óbvio:
1.
toda mudança requer um patrocinador.
2.
Segundo, baseou-se em quatro princípios, elencando, dentre eles,
algo surpreendente para um mestre em estatística: a questão do
comportamento humano. E o Japão se transformou numa referência
mundial de excelência por sua disciplina em seguir com rigor esses
referenciais que lhe garantem os ovos, mas também, a galinha que
bota ovos de ouro.
Os princípios são os seguintes:
1. Visão sistêmica:
há interdependência entre as partes de um processo, que trabalham em
conjunto para um objetivo comum. O tecido organizacional é aberto
e, quando se fecha, sofre de processo entrópico (estado caótico de
desintegração que pode levá-lo à morte). Mas a discussão principal
refere-se a interdependência. E nisto os japoneses dão
show de bola: intra-muros, a cultura reforça a cooperação, como ato
de inteligência, em detrimento da competição, que nos é instintiva.
2. Teoria da variabilidade:
refere-se à metodologia de diagnóstico e solução de problemas,
mediante utilização de técnicas estatísticas visando redução das
fontes de incerteza e canalização de recursos para o que faz a
diferença. A maior parte de nós é superficial e emotiva para definir
e entender problemas e desafios. Tendo trabalhado com mais de 22 mil
profissionais, muitos deles executivos de alto nível, descobri que
poucos sabem definir problema. É assustador!
3. Teoria do conhecimento:
não há conhecimento sem base teórica, assim, a experiência
proporciona resposta a muitas perguntas, mas a pergunta deriva da
teoria. Trata-se de saber pensar,problematizar, analisar,
sintetizar, instruir, aculturar, propiciar senso crítico.
4.
Teoria do comportamento:
dá ênfase à questão mais crucial: a competência interpessoal de
relacionamento, razão mais comum dos insucessos dos programas de
mudança organizacional. Todos sabemos, o alicerce do comportamento
são as atitudes:
atitude é tudo!
A base teórica do guru está, portanto, no processo de trabalho. É
preciso ganhar o coração das pessoas, comprometê-las com os
resultados de seu trabalho (princípio 4), trabalhar a
interdependência dos times (princípio 1), saber resolver com
profundidade os problemas, para que se segue às causas e não apenas
aos sintomas (princípio 2) e ter conceitos empresariais e
estratégicos desenvolvidos, um forte senso de direção e de senso de
pertencer (princípio 3).
No Brasil, vivenciamos a teoria do jeitinho, o remendo, o cada um
prá si. Obviamente, idéias como as de Deming não vingam: as nossas
organizações não conseguem absorver uma mudança tão profunda de
hábitos e estilos.
Os resultados não serão bons enquanto o processo de trabalho for
ruim. O acionista precisa ter visão de helicoptero, os funcionários
precisam ter habilidade e senso de propriedade, e os executivos
precisam tornar-se líderes.
A cultura organizacional
tupiniquim, paraíso da união entre amadorismo e imediatismo,
endeusa os ovos de ouro, descuidando-se da galinha que os produz.
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Hamilton Bueno é expert em motivação, liderança, vendas e
negociação. MBA pela USP, especializado em Psicodrama, já treinou
mais de 22.600 profissionais e seus 4 livros já venderam mais de 45
mil exemplares.
hamilton@hamiltonbueno.com.br
- 14-3842-3077
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