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DEPRESSÃO...
(
ou Deixar Fluir)
Não é uma doença,
por isso não se cura. É um processo freqüente, comum e natural
do ser humano, e requer uma compreensão em nível individual, coletivo
e integral.
De frente para o
mar, podemos observar que as ondas vão e voltam... vão e voltam...
vão e voltam... enchendo e esvaziando... enchendo e esvaziando...
mas, se observarmos atentamente, olhando a tonalidade, verificaremos
que não existe maré cheia e nem vazia, existe apenas o mar e o
movimento da maré.
De
frente para nós mesmos, para o nosso ser, a nossa existência,
podemos observar que as ondas vão e voltam... vão e voltam...
enchendo e esvaziando... ora nos deixando com muita energia, ora
nos deixando pouco energizados. Quando estamos cheios de energia,
em excesso, damos a isso um nome:
euforia!
Quando estamos com pouca energia, sentindo-nos
carentes, damos a isso outro nome:
depressão!
Mas, se observarmos atentamente, olhando a tonalidade,
indo além do nome, da palavra, e atingindo a realidade em si mesma,
verificaremos que não existe euforia, nem depressão, existe apenas
a mente, e o movimento da mente.
Como tudo na vida é fluxo, é processo,
é movimento:
como tudo na vida é contração e
expansão;
tensão
e distensão;
inspiração
e expiração;
ingestão
e digestão;
sístole
e diástole (contração e descontração);
tesão
e exaustão;
conscientização
e alienação;
somatização
e mentalização;
materialização
e espiritualização;
yin e yang;
caos
e ordem;
vida
e morte;
fim
de um ciclo e começo de outro; como tudo isso é natural, convém
indagar: - Por que temos que estar sempre energizados? Por que
sofremos quando estamos com pouca energia? É preciso discriminar:
sofremos quando estamos com pouca energia, e não
porque estamos com pouca energia. Ou seja, sofremos
nos momentos de pouca energia, mas não é o baixo nível de energia
a origem do sofrimento. Então, qual é a origem?
A
incompreensão de que a vida é fluxo, é processo, é movimento,
nos faz sofrer.
Quanto maior a nossa inconsciência
com relação a esse fato, maior o nosso sofrimento. Tomamos consciência
de que a vida é fluxo, compreendemos esse fato, não quando achamos
que essa afirmação é bonita, inteligente, lógica ou científica,
mas quando percebemos que:
“depois da tempestade vem a bonança”, e
“não há nada como um dia após o outro”, ou ainda,
depois da euforia vem a depressão e, como conseqüência,
depois da depressão retorna a euforia, e assim sucessivamente.
Devido a nossa incompreensão, desejamos estar sempre alegres,
energizados, contentes, eufóricos, e com isso negamos, com nossos
pensamentos, sentimentos e ações, que a vida é fluxo!
Tendo a compreensão de que a vida
é fluxo, perceberemos que não foi necessário nenhum esforço para
a depressão vir, e também não será necessário forcejar para depressão
ir. Portanto, não-se-esforce! Não se esforce, inclusive, para
não-se-esforçar. Porque, quando apontamos para a necessidade de
não forcejar, o que acontece com a pessoa que está condicionada
a desperdiçar suas energias se esforçando? Ela vai fazer um enorme
esforço! Vai fazer esforço, para que? Vai fazer esforço para não
esforçar! Só que, fazer esforço para não se esforçar, ainda é
se esforçar! Tudo que temos que fazer é ficarmos atentos, alertas,
vigilantes, cônscios de que estamos forcejando; observando, investigando
e compreendendo o nosso comportamento. Ao perceber o esforço,
e compreender o absurdo de tanto esforço, vamos adquirindo:
a velocidade e o ritmo, a direção
e o sentido, a graciosidade e a beleza, que nos próprios, singulares,
únicos, individuais, e nessas condições começamos a fluir, voltamos
a fluir... naturalmente!
As ondas vão e voltam... vão e voltam...
e como é maravilhoso a aventura de fazer um “surf” nas nossas
praias existenciais. Não é preciso a prancha. Requer apenas que
estejamos atentos e inteiros, com a totalidade do nosso ser. Infelizmente,
não é isso que se faz. Levamos apenas uma parte de nosso ser:
O EU, o EGO. Essa é a parte que estamos mais familiarizados, mas
é sem dúvida uma parte muita pequena, e contém pouca energia.
Com ela não vai muito longe. Vale lembrar a parábola de um Santo
que andava por uma praia, perdido em questões teológicas e existenciais,
quando descobriu a brincadeira de um menino, que com uma concha
pegava a água do mar e colocava num pequeno buraco na areia. Fazia
isso incessantemente, tentando preenchê-lo. O Santo apiedou-se,
aproximou-se dele, e disse: - “Não percebes que, por maior que
forem os teus esforços, não conseguirás preencher com a água do
mar esse buraco”, ao qual o menino respondeu: - “É o que fazes,
quando queres conceber com tua mente racional (EU) as questões
que tu meditas”. E ao dizer isso o menino desapareceu. Era um
anjo (?), segundo o texto religioso.
Pois é! O EU ajuda pouco, e atrapalha
muito (egoísmo, egotismo, egocentrismo, narcisismo...). Quando
estamos com pouca energia, descontentes, deprimidos, o EU indaga:
- “Por que eu não posso ficar contente... sempre contente?”. Imediatamente
o nosso ser entra em conflito, gera-se o atrito, e deixamos de
fluir livremente. Uma parte nossa está deprimida, e a outra não
quer ficar... não deixa fluir! Dividimo-nos, e confrontamo-nos.
Sofremos, não porque temos pouca energia, mas porque criamos
o conflito. Não vemos as coisas como realmente
elas são. Não percebemos que, se as ondas vão, elas voltam, e
qualquer esforço do EU é inútil e desnecessário. Com o conflito
desperdiçamos energia, e como já estávamos desenergizados, ficamos
com menos energia ainda, ou seja, produzimos o contrário, agravamos
a depressão!
As ondas vão e voltam... num movimento
suave e harmonioso. Mas, com a interferência predominante e controladora
do Eu - que insiste em ditar regras com base no seu próprio desejo,
sem levar em consideração a naturalidade das coisas, a totalidade
da existência, as exigências da realidade - tudo fica parecendo
calmo, tranqüilo e sereno, mas só aparentemente. O restante do
ser está sendo sufocado, e o EU não lhe dá atenção. Necessidades,
instintos, impulsos, emoções, sentimentos, desejos, paixões, tudo
isso vai sendo reprimido, negado. Mas tudo isso tem energia,
muita energia, uma incomensurável energia, que não está sendo
percebida, compreendida e aproveitada. Lentamente, uma rebelião
vai se formando nos subterrâneos do ser. Mais cedo, ou mais tarde,
ela explode, e como lava incandescente, nos corrói interiormente.
Então... desorganiza-se o movimento,
e o ser se desequilibra. As ondas transformam-se em vagas... vagalhões!
O mar existencial se agita. A tempestade recrudesce. Perde-se
a orientação, a sustentação. A vida fica sem significado, sem
sentido. A gente se agarra a qualquer que coisa que nos pareça
segura. Procuramos os amigos ... mesmo que eles não sejam amigos
de verdade; queremos a presença de pessoas, um grupo, uma religião,
uma crença, um dogma, uma oração, idéias, ideais, ideologias,
filosofias, sindicatos, movimentos sociais, partidos políticos,
e tudo isso, nessas circunstâncias, são meios de fuga.
Mas a vida social também pode nos assustar, e então, nos refugiamos
no nosso interior caótico, e confinamo-nos no isolamento, buscando
companhia o açúcar, o café, o cigarro, os alimentos artificiais
e excessivamente condimentados, o álcool, as drogas (inclusive
os psico- farmacos), os entretenimentos, a masturbação, o sexo
sem envolvimento afetivo, e outras coisas e atividades que possam
nos distrair, nos gratificar, e nos colocar fora dessa realidade
tão sofrida.
Lembramo-nos da velha esperança
(... se lembram dela!). Mas, a esperança é a última que morre...
e a primeira que mata! Quem não espera, não se desespera. Quem
nunca esperou, nunca vai se desesperar. Não espere por nada, nem
por ninguém. Não conte com nada, nem com ninguém. Nós estamos
sós, irremediavelmente sós. Todo apego é uma ilusão. Toda segurança
é falsa. (Inclusive, e principalmente, a segurança da Religião,
do Estado, da Família, ou de um “grande amor”). Não há luz no
fim do túnel. E ao percebemos isso, a gente se deprime mais ainda.
Porém, mesmo nessas condições, ainda é a luz possível deixar fluir.
Se fluirmos, percebemos que não há luz do túnel porque, ele não
existe, é apenas mais uma ilusão. A “esperança”, a “luz no fim
do túnel”, o “amanhã”, o “futuro”, uma “outra vida depois dessa”,
uma “outra pessoa que vai-nos-fazer-feliz-e-acabar-com-tudo-isso”,
é tudo meramente ilusão, faz parte do nosso conflito, da nossa
rebelião interior.
Mas o Ser existe, e é real. E há
luz, muita luz, no Ser. Nós procuramos a luz no lugar errado.
Essa luz existe dentro de nós mesmos. Olhe para dentro de si,
e observe que está tudo sombrio. Mas... observe atentamente, atenciosamente,
e irá perceber que... se há sombra, é porque há luz! Observe
suas necessidades, suas emoções, seus sentimentos, seus desejos.
Não os classifique como “bons” ou “ruins”, “certos” ou “errados”.
Apenas olhe, veja, observe; sem julgamento, sem condenação, sem
reprovação , sem rejeição. Eles existem, são reais, e estão sendo
reprimindo, negando. Nós somos isso: tudo isso que estamos reprimidos,
negados. Ao negá-lo, estamos a nós mesmos. Ao reprimi-lo, estamos
reprimindo a nós mesmos. E para liberta-los, e nos libertarmos,
é necessário “coragem-de-ser”, pois temos que fazer isso sozinhos.
Nada, nem ninguém, poderá nos ajudar. Não adianta gritar, se desesperar,
pois tudo isso é sucumbir. Gritaram os filósofos e poetas: - “Deus,
oh Deus, onde estás que não responde!”. E não responde mesmo!
(É importante esclarecer: se há um Deus - e não estamos afirmando,
nem negando, tal existência - Ele está dentro de nós. Se não estiver
em nós, estará em nenhum outro lugar. Portanto, as nossas respostas
não virão de fora. Estão em nós mesmos.)
A condição original do homem é o
“estar só”. Só e vazio. Isso, que parece ser uma profunda e terrível
miséria existencial, é o que há de mais pleno e mais sublime,
a origem da verdadeira liberdade, um elevado nível de consciência,
o poder de fluir e deixar fluir. Fluindo, compreenderemos que
quanto mais profundo é o “estar só”, mais profundo é o “estar
junto”, e quanto mais profundo for o “estar junto”, mais profundo
ainda será o “estar só”. Chegando ai, estamos na estação em que
desabrocha a afeição energizante, a ternura humana, a amizade
autêntica, e o amor verdadeiro.
As ondas vão e voltam... e ali,
termina o oceano e começa o continente, a água abraça a areia,
e soprada pelo vento amigo, a areia se joga nos braços do mar.
E como o ciúmes só existe apenas como invenção, emoção e limitação
humana, o sol, sem medo, sem culpa, e sem vergonha, acaricia e
aquece os três: a água, a terra (areia), e o ar (vento). E nesse
clima de afeição e ternura, nessa zona de fronteira (oceano/continente),
as nossas praias acontecem. É fácil perceber o fascínio das regiões
praianas. Despojando-nos de muita roupa, que é aquilo que encobre
o corpo, temos a tendência a despojarmo-nos de nossas máscaras
sociais, que é aquilo que encobre o nosso ser, e define a nossa
personalidade. Através de uma praia selvagem, podemos alcançar
as nossas praias existenciais. As praias são reais, mas a fronteira
(oceano/continente) é outra ilusão. Tudo faz parte de uma totalidade
maior: o Planeta Azul, que é como um grão de areia fluindo no
espaço. Toda fronteira é uma ilusão. Toda divisão é falsa. É uma
visão parcial, e um desconhecimento da totalidade. Eu e o outro,
somos um só. Eu e a sociedade, somos um só. Eu e o universo, somos
um só. E na Unidade só há energia. Tudo é energia! Tudo
é afeição! Não há lugar para a violência! Não há lugar para a
euforia (extroversão hetero-violenta)! Não há lugar para a depressão
(introversão auto-violenta)!
O ser humano está deprimido, e sofre,
porque divide o mundo, divide os povos, divide as pessoas, divide
a terra, e os produtos da terra, produzindo fome, miséria e guerra
(bélica e/ou econômica). E essa divisão exterior, tem origem na
divisão interior do ser humano, na divisão do EU, que desatento,
sem auto-compreensão, sem auto-percepção, sem auto-conhecimento,
produz o conflito. Instaurado o conflito interno do indivíduo,
ele vai se somar ao conflito interno dos outros indivíduos da
família, e multiplica-se pelo conflito de todos os grupos, organizações
e instituições, com desdobramentos políticos, econômicos, e sociais.
E o resultado fica estampado nas notícias de jornais. Somos informados
do seguinte processo: egoismo (nacionalismo) - incompreensão -
desafio - competição - confronto - humilhação - injustiça - autoritarismo
- prepotência - agressão - violência -crueldade - guerra - mortalidade...
a tragédia humana, da qual todos nós, sem exceção, somos responsáveis!
As instituições sociais, nacionais e internacionais, inclusive,
e principalmente, a ONU - Organização das Nações (des) Unidas
-, são constituídas por indivíduos também em conflito, que expressam
e manifestam sua divisão interior, em escala mundial. O ser humano,
e todos os seres humanos, estão em conflito. A Ciência está em
conflito, porque o cientista é um ser humano. A Psicologia, a
Sociologia, a Economia, a Política, e todas as outras ciências
sociais e humanas, em suas formas tradicionais, não estão instrumentalizadas
para compreender o conflito. Ao contrário, elas o alimentam. O
marxismo (sociologia + economia + política + ideologia) não seria
a redenção da Humanidade? E agora, a redenção não se dará através
do neo-liberalismo (que já fracassou, enquanto liberalismo), ou
da social-democracia? E assim como há um neo-liberalismo, não
é provável que inventem um neo-socialismo? Tudo meramente ilusão!
a História se repetiu, se repete, e se repetirá, enquanto o ser
humano não se autoconhecer, e se liberar de suas idéias, ideais,
utopias, ideologias, crenças, dogmas, sonhos, fantasias, e ilusões.
Sorria, enquanto é tempo! A nossa
“felicidade” pode terminar na próxima tragédia! Quando nos sentimos
deprimidos, é preciso abrir os olhos e ver: é a Humanidade que
está em depressão! O EU e o mundo são um só. Nós somos o mundo.
O mundo somos nós. Nós estamos no mundo. O mundo está em nós.
Nós não existimos sem “esse mundo”. “Esse mundo” não existe sem
nós. Sem nós, pode existir um “outro-mundo”, mas “esse-mundo”
não existe sem nós. Enquanto cada pessoa deseja resolver o “seu”
problema particular, e cuidar só do que é seu, aparentemente seu,
ilusoriamente seu, vai aumentar o conflito, a decepção, a frustração,
o vazio, o sem-sentido, a depressão. Quando o problema da humanidade
for o “seu” problema, o nosso problema, aí é o começo da aprendizagem,
da (auto)descoberta, do (auto)conhecimento, e a compreensão se
inicia, e entramos na estação do amor, da amizade, da afeição
e da ternura. Aí, em estado de solidariedade e de comunhão, nos
energizamos, e a Humanidade vai ficando cada vez menos deprimida...
fluindo deixando fluir!
As ondas vão e voltam... enchendo
e esvaziando... mas não há maré cheia, e nem vazia, existe apenas
o mar, e o movimento da maré.
Existe apenas a Mente e o movimento
da Mente! Existe apenas o Universo e o movimento do Universo!
Existe apenas o Universo! Apenas o Universo! Universo!
Quando o Uni-verso se movimenta,
ele se faz diverso. E em meio a diversidade,
e através de ciclos, a existência acontece!
As ondas vão e voltam...
Fonte:
Paulo D. Teixeira
Adaptado e reescrito parcialmente por
Hamilton Bueno
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