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DESCULPA VERDADEIRA
Não creio que a falta de motivação, a pequena contribuição aos
resultados da área, os atrasos, etc, deva-se atribuir ao acaso ou
somente ao “chefe” autoritário, às inadequadas condições de
trabalho, ao baixo desafio ou à falta de perspectiva profissional.
Há uma contrapartida. Há a participação do próprio profissional
nessa deterioração profissional. Se é verdade que um povo que
descobre que as coisas podem mudar, e que detém os fatores de
mudança, se torna livre, também é verdade que o verdadeiro inimigo
não é o país opressor, mas a facção do oprimido que está ao lado do
opressor.
Vou contar a vocês uma estória real que sempre me impressionou. É a
estória do piloto inglês. Muito jovem já tinha um posto elevado na
RAF. Num vôo de treinamento seu avião caiu e ele teve amputadas
ambas as pernas. Viu-se então, bastante jovem, numa situação
terrível. Seria aposentado, com um bom soldo, o que lhe garantiria a
sobrevivência. Mas toda a sua possibilidade de realização na vida
pareceria truncada.
Ele desenhou e mandou construir duas pernas mecânicas. Aprendeu a
andar, voltou ao trabalho, casou, teve filhos. Voltou a voar e foi
piloto da RAF durante 20 anos. Guerra Mundial. Seu avião foi
abatido. As pernas ficaram presas. Ele as abandonou e saltou de
para-quedas. Foi feito prisioneiro e posteriormente libertado. Sua
vida lhe deu autoridade para dizer a frase que eu uso com freqüência
e que aplico agora com vocês: “Quando você tiver uma boa desculpa,
não a use. A boa desculpa é a desculpa verdadeira”.
Com freqüência vemos na vida e na vida profissional, pessoas com uma
postura rígida e que por isso se amarram, escondem a própria
censura. Desta forma, elas têm a melhor desculpa do mundo. A
empresa, o chefe, os pares, os fornecedores, os clientes, realmente
amarram. E com isso a pessoa deixa de viver. Mas foram os outros, os
responsáveis. Jamais elas mesmas. Fogem assim, neuroticamente, de
encarar o próprio conflito. Como isso poderia ser aplicado aos
profissionais? Na realidade, este papel profissional pode estar
completamente esmagado, desqualificado, e isso pode ser a pior
desculpa do mundo, simplesmente porque é verdade. E em cima desta
verdade, eu deixo de me aperfeiçoar, deixo de produzir, deixo de
pesquisar, continuo fugindo e tendo medo do que é novo. Não me
associo, saboto as pessoas que tenham coisas novas. Não revejo se
meu relacionamento com meus subordinados está calcado na rigidez da
minha postura e de minhas normas. Não vou verificar se meu
ajustamento emocional esta sendo destrutivo para minha equipe, ou se
o profissional, como eu o estou praticando, está sendo destrutivo
para meu próprio ajustamento emocional. Eu não faço nada disso. Por
que? Porque sou perseguido, porque ganho pouco, porque não tenho
chance. Eu tenho a pior desculpa do mundo. Por que? Porque é
verdade. Realmente, eu sou perseguido, ganho pouco, pareço não ter
chance.
Vemos então que não é apenas um poder que,
para não ser distribuído, me esmaga. Eu sou
cúmplice desse poder quando me deixo esmagar tranqüilamente,
gostosamente, dizendo: “A culpa é dele”. É verdade, a culpa é dele,
também.
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Fonte: Paulo
Gaudêncio, citado em meu terceiro livro: Autodesenvolvimento
para a Empregabilidade, Hamilton Bueno, LTr, 1999.
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