LIDANDO COM A INVEJA

 Hamilton Bueno (*)

REFLEXÕES INICIAIS

Algumas idéias básicas nos ajudam a conhecer a natureza da inveja e alguns de seus elementos.  

1.    “Quando um dos meus amigos tem sucesso, alguma coisa em mim se apaga”, afirma Gore Vidal, mostrando uma das faces cruéis da inveja.

2.    Ketz de Vries, um dos nomes mais respeitados no estudo da inveja, afirma que no mundo pragmático, o que não é observável é ignorado. “No mundo pragmático, o teatro interior  é ignorado ou exageradamente simplificado”.  Essa percepção equivocada me faz representar para outros aquilo que não sou. Compro a minha infelicidade, por falsificar-me.

3.    Quando não me conheço bem, ou não respeito meus limites, o sentimento de confusão toma lugar, levando-me à angústia. Em vez de competir comigo mesmo, para ser melhor a cada dia, passo a competir com outros.

4.    É vergonhoso para mim admitir que invejo, a idéia me causa repulsa, então, preciso utilizar de estratagemas para dissimular meus sentimentos (para que os outros não percebam e para mim mesmo, para que não me sinta ainda mais inferior).

5.    Cuidado com olho gordo. Ele lhe traz maus presságios!

6.    Se inveja fosse febre, o mundo todo estaria doente.

7.    A inveja jamais dá lugar à festa.

8.    A inveja tem sono leve e ambições desmesuradas.

9.    A essência da inveja está na rejeição da diversidade.

10.    A inveja é companheira da baixa auto-estima, da baixa auto-imagem e do psiquismo fragilizado.

11. A inveja é inerente ao ser humano, faz parte da sua mesquinhez. Passamos pela vida tentando provar nosso valor para outros e, por isso, nos comparamos. Na ânsia de mostrarmos nossa superioridade, acabamos prisioneiros da inveja.

 

DEFINIÇÃO

Inveja significa:  

        Invidia (invidare): olhar maliciosamente. 

        Um desejo nocivo, um sentimento de mortificação e de má vontade suscitada pela existência de vantagens detidas por outrem, gerando rivalidade. 

       Consciência penosa ou rancorosa das vantagens desfrutadas por outrem e do desejo de possuir as mesmas vantagens. 

       Sentimento que gera frustração, cólera, piedade por si mesmo, cobiça e reivindicação.  
 

OS 4 ESTADOS DE FORMAÇÃO DA INVEJA,
SPIELMAN (1971)

1. DESEJO DE EMULAÇÃO (FAZER DE CONTA)

Aspiração de igualar,  imitar ou superar o invejado.

2. MEDO DE SER LESADO (FERIDA NARCISISTA)

Impressão de ser inferior, imperfeito, descrença nas próprias capacidades.

3. SENTIMENTO DE COBIÇA

Desejo ardente de possuir aquilo que o invejado detém.

4. SENTIMENTO DE CÓLERA

Desejo de ver o outro ruir.

Formas de manifestação da cólera:

       atenuada: decepção ou descontentamento 

       manifestas: rancor ou má vontade 

       violentas: desejo de destruir ou deteriorar o objeto cobiçado. 


ORIGENS DA INVEJA

     Estados pré-edipianos: a relação do bebê com o seio da mãe. 

     A consciência da diferença anatômica entre os sexos.  

     A diferença entre ciúme (relação envolvendo 3 pessoas, sentimento de perda) e inveja (relação envolvendo 2 pessoas, sentimento de conquista)  

     As raízes da competição (comparação e rivalidade) estão na chegada do irmãozinho.  

      As reações afetivas do recém-nascido seguem duas tendências básicas:  

1. Satisfação e paz;  

2. Aflição:  cólera, vergonha, culpabilidade, inveja, ciúme, ansiedade, depressão.  

Emergem daí disposições para o prazer e para a dor. (Krystal, 1982) 


REAÇÕES À INVEJA

 1. IDEALIZAÇÃO 

Colocamos fora de alcance, onde o exagero tenta evitar a dor da inveja.

Utilização fracionamento como mecanismo de defesa, contendo impulsos agressivos.  

2. RETIRADA 

Incapacidade de tolerar os sentimentos de inveja. Fica-se à sombra.

Medo do sucesso, para não incitar sentimentos invejosos.  

3. A DESVALORIZAÇÃO 

A ferida narcisista e a erosão da imagem interior dão lugar ao desejo de revidar. A maledicência, as críticas negativas ou a humilhação são ferramentas úteis. 

O gosto da vingança e o sentimento rancoroso (Modelo de Karen Horney - 1948) 

  1. A arquitetura da vingança (intenção manifesta, ação ainda inibida);
  2. Papel de vítima (caráter vingativo toma forma por meios subversivos e indiretos). Ao oferecer um espetáculo de sofrimento, almejo gerar um sentimento de culpa no outro;
  3. Indiferença com o invejado (frieza, distanciamento). É o triunfo do rancor.

4. A BUSCA DA EXCELÊNCIA

Transformação do objeto da inveja em algo tangível e acessível, através da construção de um plano. O rancor dá lugar à admiração e ao trabalho. 

5. A REPARAÇÃO

Apoio ao invejoso a oportunidade para quebrar o ciclo vicioso da inveja. Exige esforço de superação para desmantelar o fantasma destruidor.  

Exige um senso de responsabilidade, generosidade, reconhecimento, empatia, engajamento pessoal e maturidade emotiva. 


APRENDENDO A CONVIVER COM A INVEJA:
UMA ALTERNATIVA CONSTRUTIVA

Transforme inveja em admiração! 

Em vez de tentar rebaixar o admirado para a posição do invejoso, precisamos buscar as competências para nos elevarmos ao mesmo patamar do admirado (invejado). 

A inveja é um sentimento natural do ser humano. A questão crucial é o que se faz com a inveja. Transformá-la em admiração pode ser uma saída de extremo valor.  

Quando sentimos inveja, muitas vezes nos sentimos culpados. E esse sentimento mostra que não sabemos lidar com a inveja.

Ao vê-la nascer em você, não a negue. Admita! Avalie seus sentimentos mais profundos: você se sente inferior, menos capacitado? Pense no que pode ser feito para você ter o mesmo brilho. Pense também se você precisa deste brilho. 

Rico não é aquele que tem muito, mas é aquele a quem falta pouco.

(*) Hamilton Bueno é palestrante e expert em liderança, motivação, vendas e negociação. Seus livros já venderam mais de 45 mil exemplares e ele já treinou mais de 22.600 profissionais. Contato com autor: 14-3842-3077 ou hamilton@hamiltonbueno.com.br