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PESQUISA DE CLIMA ORGANIZACIONAL:
mais que
técnica, um ato de coragem.
Hamilton
Bueno (*)
Medimos o grau de maturidade da organização,
pela forma como explicita e trata seus conflitos.
Na
busca de sua sobrevivência e perpetuidade, um dos maiores desafios
organizacionais é a obtenção da melhoria da produtividade empresarial.
O
clima organizacional é uma variável que influi diretamente na
produtividade, pois o grau de salubridade de uma organização depende
de sua atmosfera psicológica. Como poderíamos desejar engajamento
de alguém que tem aversão à empresa, ou ao chefe ou à forma como
é tratado?
Para
entendermos o clima, enquanto resultado da interação dos elementos
da cultura, precisamos, de início, compreender o que é cultura
organizacional: conjunto de mecanismos reguladores e adaptativos
de pessoas ou grupos a determinados ambientes, em determinado
tempo.
Portanto,
as pessoas regem seus comportamentos segundo os ditames da cultura
da organização. Entender a sua interação é que nos leva, não aos
efeitos, mas as causas determinantes da qualidade de vida da organização
ou da ausência dela.
No
meio empresarial é comum o estabelecimento de feudos, da prevalência
da competição sobre a cooperação, da preferência por errar sozinho
que acertar em grupo, da defesa de interesses pessoais em detrimento
dos objetivos organizacionais. Em relação aos executantes, muitas
vezes se percebe alienação e desconexão com os objetivos da organização.
A relação chefia-subordinado é recheada, na maior parte das vezes,
de rancor, mágoa, que acabam por estimular a frustração e a apatia,
levando a organização como um todo a respirar um clima pesado,
cujas partículas poluentes são o medo e a disputa por poder ou
prestígio, arrefecendo ou minando a espontaneidade e a criatividade,
essenciais para quem deseja construir um futuro melhor.
A
evolução das relações capital-trabalho vêm amadurecendo de uma
forma contínua no Brasil, principalmente com a introdução de valores
democráticos, ensejando maior participação do trabalhador, com
vistas ao desenvolvimento das organizações e conseqüentemente,
do profissional que oferece sua contribuição. Odile Benoit, demonstra
da seguinte forma essas relações:
MATRIZ
DE PARTICIPAÇÃO E COMPROMETIMENTO
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Contribuição
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Menor
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Maior
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Intensidade
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Retribuição
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Dependência
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Comprometimento
|
Maior
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Marginalidade
|
Frustração
|
Menor
|
É certo que, simultaneamente, todos essas situações de envolvimento
com o destino da organização ocorrem no dia-a-dia empresarial:
·
dependência
(contribuição menor que retribuição): ocorre quanto o empregado
sente-se recebendo uma recompensa acima daquilo que produz. Nesta
situação o empregado esforça para parecer produtivo, porém seu
grau de assertividade e criatividade tendem a fenecer.
·
marginalidade
(contribuição e retribuição pouco significativas): ocorre quanto
o empregado percebe que sua contribuição é pequena, justificando-a
pela pouca retribuição que recebe, entrando, assim, num ciclo patológico,
que o leva a acomodação.
·
frustração
(contribuição maior que retribuição): ocorre quando o empregado
percebe que seu empenho e geração de riquezas para a organização
não são recompensados na mesma proporção, levando-o a sentir-se
explorado pelo empregador. Nascem daí, sentimentos de revolta e
mágoa, favorecendo a queda de produtividade, baixa conexão com os
objetivos organizacionais e insatisfação dos clientes, internos
e externos.
·
comprometimento
(contribuição e retribuição equilibradas): ocorre
quando o empregado sente-se adequadamente recompensado pelo que
oferece em termos de agregação de riquezas, através do conhecimento
e de habilidades colocadas à disposição da organização. Esta relação
sadia entre a organização e seus colaboradores, pode ser traduzida
pela participação e parceria efetivas, dependendo da qualidade gerencial.
As
organizações brasileiras descobrem, desta forma, uma alteração
profunda nas suas relações, em busca da sobrevivência, da perpetuidade
e do aumento do valor: o estabelecimento de relações equilibradas
com seus parceiros: fornecedores, empregados, clientes, acionista,
entidades representativas da sociedade, governo, etc.
As
empresas de sucesso, num mundo tão competitivo, são aquelas que
antevêem as mudanças, agindo pró-ativamente: interferindo nos
seus futuros. Assim, conhecer (entenda-se conhecer cientificamente)
as variáveis ambientais e os cenários que se avizinham são fatores
basilares para a ação gerencial com vistas a otimização dos processos
rumo ao desenvolvimento organizacional. Não basta entretanto,
conhecer. É preciso agir. No campo da intervenção encontramos
outra deficiência gerencial grave, todo processo de mudança tende
a ser traumático e permeado por resistências, muitas vezes sutis,
que escapam à visão do empreendedor.
Dessa forma, a metodologia denominada “Pesquisação”
é recomendada. Ou seja, não devemos apenas “levantar
poeira”, é preciso ver com base científica e estruturar-se para
tomar as ações corretivas, preventivas e pró-ativas. Naquilo
que a organização entenda não-aplicável ou objeto de ações futuras,
deve-se, igualmente, comunicar à população pesquisada ou envolvida.
Assim,
a realização de pesquisa de clima não é meramente um ato de reconhecimento
do terreno com vistas à busca da produtividade organizacional.
É um ato de coragem no enfrentamento de conflitos
e de resistências de todo tipo e de toda ordem.
O
objetivo da realização de pesquisa de clima organizacional é conhecer
de forma estruturada seus processos sociais e a forma de se relacionar
com eles, bem como preparar um plano de ação que propicie à empresa
melhorar a produtividade e a saúde organizacionais.
O
clima organizacional, a atmosfera psicológica da organização,
é fruto do conjunto de percepções das pessoas que compartilham
seu dia-a-dia com a organização, firmando
convicções que influirão diretamente no seu desempenho e no resultado
da organização.
Assim,
a pesquisa de clima, para que surta os efeitos desejados no sentido
da otimização da atuação da empresa, deve observar os seguintes
princípios e recomendações:
1.
A pesquisa revelará que a realidade percebida e não aquilo
que efetivamente acontece. Descortinará, assim, os sentimentos dos
pesquisados com relação à organização. Neste caso, revelará
pontos onde a comunicação empresarial ou a atuação gerencial estão
deficientes. Supondo que uma organização remunere acima do terceiro-quartil
de mercado, poderá obter respostas indicando insatisfação salarial.
Certamente esta nuvem de fumaça estará revelando outras disfunções,
como, por exemplo, falta de prazer naquilo que o pesquisado faz.
2.
A pesquisa deve ser um evento de fortalecimento dos gerentes. Ou
seja, o instrumento que, em regra, apavora o corpo de liderança
da empresa, deve ser entabulado de tal forma que ganhe a adesão
e o comprometimento dos gerentes.
3.
Quaisquer que sejam os resultados, os mesmos devem ser comunicados
aos envolvidos, explicitando-se quais as ações de curto, médio e
longo prazos que serão empreendidas, bem como aquelas que a empresa
entende inoportunas ou contrárias a seus objetivos.
4.
A pesquisa de clima deve ser encarada como um instrumento de mudança
planejada, interferindo assim, na cultura da organização.
5.
Toda mudança de cultura deve ser vista como um processo complexo
de múltiplas interações, pleno em resistências, exigindo dos patrocinadores
e agentes da mudança muita determinação, união e competência.
6.
A organização deve compreender que o conflito é um elemento natural
no desenvolvimento de qualquer manifestação humana. O crescimento
das pessoas, das empresas e da sociedade depende das alternativas
que se entabulam para resolver o conflito.
7.
A pesquisa de clima deve ser percebida como um processo complexo
de diagnóstico, que conecta diversas variáveis estruturais (crenças,
valores consolidados, estilos preponderantes), tecnológicas (processos
e instrumentos de trabalho) e de caráter (aspectos psicossociais
e volitivos).
8.
A pesquisa deverá abranger a maior quantidade possível de pessoal,
sendo desejado que 90% da empresa participe da mesma. Há outros
critérios amostrais que, pela sua complexidade, sugerimos descartá-los.
9.
A pesquisa deverá garantir anonimato, e sua aplicação deve ser feita
preferencialmente in loco, em ambiente tranqüilo para que
o pesquisado sinta-se à vontade para expressar, livremente suas
opiniões.
10.A
linguagem deve ser simples, direta e objetiva. Dita de outra forma,
diríamos que devemos utilizar a linguagem da organização.
11.
A utilização de questionários é a forma mais simples e a mais utilizada
pelas organizações. Assim, propomos adotá-lo, alertando que resultados
qualitativos merecem complementação, mediante utilização de outras
ferramentas, mais apropriadas.
12.Algumas
questões podem ser objeto de régua específica. Entretanto para expressar
opiniões, sentimentos e juízos de valor, sugerimos utilizar a escala
de Likert.
13.Os
temas ou fatores a serem abordados devem situar-se próximo a 10.
Os temas ligam-se à compreensão, por exemplo:
·
da mudança ou do conflito,
·
dos estilos gerencias,
·
da forma como encara seu trabalho,
·
da imagem da organização, da chefia e de si próprio,
·
do adequado entendimento da missão, dos valores,
das políticas e objetivos da organização,
·
da satisfação com as variáveis de recompensa pelo
trabalho realizado, ·
da satisfação com a forma como é tratado,
·
da conexão (elo) que o empregado faz de seu futuro
com o futuro da organização.
14.Para
cada tema ou fator, delinear-se-á sub-temas ou sub-fatores, através
da combinação de frases afirmativas ou negativas, que cruzadas e
adequadamente analisadas, comporão o sentimento dos empregados com
relação à atmosfera que os envolve.
15.Para
que a pesquisa tenha adesão é preciso:
·
patrocínio da direção da empresa,
·
intenso envolvimento da área de R.H.,
·
compromisso do corpo gerencial com os objetivos,
metodologia e resultados da mesma, e isso será obtido somente
mediante participação dos mesmos das diversas fases (do planejamento
ao relatório final e plano de ação). É recomendável, desta forma,
que a paternidade do instrumento seja do corpo gerencial,
·
concepção do projeto como uma ferramenta gerencial
para intervenção na cultura organizacional,
·
divulgação eficaz e clara dos objetivos e da garantia
de anonimato,
·
incentivo para participação efetiva
funcionários do projeto, através de sua contribuição, mediante
expressão de opinião sincera,
·
garantia de publicação dos resultados, bem como
das medidas que serão ou não levadas a efeito.
16.A
pesquisa deve ser tratada através de software apropriado,
capaz de estruturar informações para estudo dos sentimentos,
das contradições e das aspirações dos empregados, bem como possa
dar suporte para a tomada de decisão.
17.Os
dados devem ser transformados em informações e estas em compreensão,
através de tabelas, demonstrativos, gráficos e análises, em formato
gerencial, oferecendo à empresa oportunidade para decidir
com base em fatos e dados.
Como
podemos perceber, a complexidade da interpretação do clima é mais
que um desafio, é um ato de coragem. Mais arrojo, ainda, será
exigido na hora da verdade: a ocasião de tornar reais as mudanças
planejadas.
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Hamilton Bueno é expert em motivação, liderança, vendas e
negociação. MBA pela USP, especializado em Psicodrama, já treinou
mais de 22.600 profissionais e seus 4 livros já venderam mais de 45
mil exemplares.
hamilton@hamiltonbueno.com.br
- 14-3842-3077
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