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PORQUE
OS PLANOS DE INCENTIVO
NÃO FUNCIONAM
Quando
os sistemas de recompensas falham,
não culpe o programa
-
reveja as premissas que estão por trás dele.
Alfle
Kohn (*)
Apesar
de décadas dando relevo à crença muito difusa nos esquemas de
pagamento - por - desempenho, nenhum estudo controlado
demonstra que as recompensas melhoram a qualidade do desempenho
no cargo a longo prazo.
PALAVRAS
- CHAVE:
recompensa, motivação, manipulação psicológica,
comportamento, planos de incentivo, produção, prêmios.
É
difícil exprimir o quanto a maioria dos administradores e das
pessoas que os orientam acreditam no poder de salvação que
as recompensas têm. Com certeza, a grande maioria das organizações
americanas usa algum tipo de programa com a pretensão de motivar
os empregados, ligando a compensação a um outro índice de desempenho.
Mas o mais impressionante é que a crença de que as pessoas farão
melhor o trabalho caso lhes seja prometido algum tipo de incentivo
raramente tenha sido colocada em dúvida. Essa suposição e as práticas
a ela associadas têm grande penetração, mas uma crescente quantidade
de provas apóia um ponto de vista contrário. De acordo com numerosos
estudos em laboratório, situações de trabalho, salas de aula e
outros ambientes, as recompensas muito tipicamente corroem o próprio
processo que pretendem incrementar. As descobertas indicam
que o fracasso de qualquer tipo de programa de incentivos deve
ser menos atribuído a um contratempo no programa do que a uma
inadequação dos pressupostos psicológicos que fundamentam
todos esses tipos de planos.
SUBMISSÃO
TEMPORÁRIA
A
teoria behaviorista, derivada do trabalho com animais de laboratório,
é indiretamente responsável por esses programas, tais como pagamento
por peça para trabalhadores de fábrica, opções para compra de
ações para altos executivos, privilégios especiais atribuídos
ao Emprego do Mês e comissões para o pessoal de vendas. Na verdade,
a subsistência de numerosos consultores há muito tempo tem se
baseado em inventar novas fórmulas para computar os prêmios a
serem oferecidos aos empregados. Dinheiro, férias, banquetes,
placas - a lista de variações em torno de um único e simples modelo
behaviorista de motivação é sem limite. Assim, atualmente,
mesmo muitas pessoas que são tidas como pensadores de vanguarda
- daqueles que promovem equipes de trabalho, administração participativa,
desenvolvimento contínuo e coisas do gênero - insistem quanto
ao uso de recompensas para instituir e manter essas várias reformas.
Aquilo que se tem usado como suborno para a realização pode ter
mudado, mas a confiança no suborno, na doutrina behaviorista,
não mudou.
Além do mais, os poucos artigos que parecem criticar
os planos de incentivos são invariavelmente limitados a detalhes
de implementação. Sempre foi dito que é só refinar os cálculos
para expedir incentivos - ou talvez contratar o autor como consultor
- e o problema estará resolvido. Como Herbert H. Meyer, emérito
professor do departamento de psicologia da escola de ciências
sociais e Comportamentais da Universidade do sul da flórida, escreveu:
“Qualquer um que leia a literatura sobre
esse assunto publicada há vinte anos descobrirá que os artigos
parecem ser quase idênticos àqueles que são publicados hoje”.
Essa afirmação, que podeia ter sido escrita esta
manhã, apareceu realmente em 1975. Em aproximadamente quarenta
anos, portanto, o pensamento não mudou.
OS
INCENTIVOS NÃO
ALTERAM AS ATITUDES
SUBJACENTES
AOS
COMPORTAMENTOS
As
recompensas funcionam? A resposta depende daquilo que se
entende por “funcionar” . A pesquisa indica que as recompensas
têm sucesso em assegurar, de forma ampla, apenas uma coisa: submissão
temporária. Quando se trata de produzir mudanças duradouras de
atitude e comportamento, todavia, as recompensas, assim como as
punições, são surpreendentemente ineficazes. Uma vez que as recompensas
desaparecem, as pessoas voltam aos seus antigos comportamentos.
Estudos mostram que oferecer incentivo para perder peso, deixar
de fumar, usar cintos de segurança, ou (como no caso das crianças)
agir generosamente não é somente menos eficaz do que outras
estratégias, mas freqüentemente se revela pior do que não fazer
mesmo nada. Os incentivos, uma versão daquilo que os psicólogos
chamam de motivadores extrínsecos, não alteram as atitudes que
estão subjacentes aos nossos comportamentos. Não criam compromisso
duradouro com nenhum valor ou ação. Em lugar disso, os incentivos
meramente - e temporariamente - modificam aquilo que fazemos.
No que diz respeito à produtividade, pelo menos,
duas dúzias de estudos que apareceram nas últimas três décadas
têm demonstrado, de maneira conclusiva, que aqueles que esperam
receber uma recompensa por completar uma tarefa ou fazer
aquela tarefa com sucesso simplesmente não se desempenham tão
bem como aqueles que não esperam nenhuma recompensa. Esses estudos
examinaram recompensas dadas a crianças, adultos, homens e mulheres,
em tarefas que vão desde memorizar fatos para a resolução de problemas
até montar colagens. Em geral, quanto maiores eram a sofisticação
cognitiva e a abertura de pensamento requeridas, pior as pessoas
se desempenhavam quando trabalhavam por uma recompensa. Bastante
interessante é o fato de que os próprios pesquisadores freqüentemente
eram pegos de surpresa. Eles acreditavam que as recompensas produziriam
um trabalho melhor, mas descobriram o contrário.
A
dúvida dos gerentes era se os planos de incentivos podiam funcionar
onde motivadores extrínsecos geralmente não funcionam. Infelizmente,
como assinalou o autor G. Douglas Jenkins, Jr., a maior parte
dos estudos organizacionais até hoje - assim como os artigos publicados
- tentou “concentrar-se nos efeitos das variações ocorridas
nas condições de incentivos e não em saber se o pagamento baseado
unicamente no desempenho em si mesmo eleva os níveis desse mesmo
desempenho”.
Um certo número de estudos, todavia, examinou se
o pagamento ao nível do pessoal executivo estava ou não relacionado
aos lucros da corporação, bem como outras medidas do desempenho
organizacional. Freqüentemente encontravam-se correlações fracas
e até mesmo negativas entre pagamento e desempenho. Tipicamente,
a ausência de tais correlações é interpretada como prova de ligação
entre a compensação e o empenho no trabalho. Todavia, a maior
parte desses dados poderia sustentar uma conclusão diferente daquela
que reverte a orientação causal. Talvez aquilo que tais estudos
revelam seja que pagamentos mais altos não produzem melhor desempenho.
Em outras palavras, a própria idéia de tentar recompensar a qualidade
pode ser uma missão de tolos.
Considerem-se a descobertas de Jude T. Rich e John
A . Larson, que trabalharam na Mckinsey & Company. Em 1982,
usando entrevistas e afirmações indutivas, examinaram programas
de compensação em 90 das maiores companhias dos EUA para determinar
se o retorno para os acionistas era melhor nas empresas que tinham
planos de incentivos para altos executivos do que naquelas que
não possuíam tais planos. Foram incapazes de descobrir diferença
alguma.
Quatro anos mais tarde, Jenkins identificou 28
estudos anteriormente publicados que mediam o impacto dos incentivos
financeiros sobre o desempenho. (Alguns foram conduzidos em laboratórios
e outros em campos). Sua análise, “Financial incentives”
, publicada em 1986, revelou que 16 desses estudos (57%) mostraram
efeito positivo sobre o desempenho. Todavia, todas as medidas
de desempenho eram de natureza quantitativa: um bom trabalho consistia
em produzir mais de alguma coisa ou fazê-lo mais depressa. Somente
cinco desses estudos contemplavam a qualidade do desempenho. E
nenhum deles mostrava benefício algum atribuído aos incentivos.
Outra análise aproveitou uma situação incomum que
afetou um grupo de soldadores de uma fábrica do Meio-Oeste.
A pedido do sindicato, um sistema de incentivo que existia de
fato há alguns anos foi abruptamente eliminado. Nesse sentido,
se o incentivo financeiro proporciona motivação, sua ausência
deveria precipitar a queda da produção. E isso foi exatamente
o que aconteceu no começo. Felizmente, Harold F. Rothe, principal
executivo da área de pessoal e assistente da diretoria da Beloit
Corporation, acompanhou a trajetória da produção por um período
de meses, fornecendo um tipo de dados de longo prazo raramente
coletados nesse campo. Depois de rápida queda inicial, Rothe descobriu
que, na ausência de incentivos, a produção dos soldadores rapidamente
se elevou e logo atingiu ou superou o nível anterior.
Ao estudar o quanto os programas de intervenção
afetam a produtividade do trabalhador, Richard A . Guzzo, professor
associado de psicologia na Universidade de Meryland, College Park
analisaram algumas das 330 corporações constantes de 98 estudos
em meados de 1980. Os números brutos pareciam indicar uma correlação
positiva entre os incentivos financeiros e a produtividade, mas,
devido às enormes variações de um estudo para outro, os testes
estatísticos indicaram que de maneira geral não existia nenhum
efeito significativo. Além disso, os incentivos financeiros não
se relacionavam ao número de trabalhadores ausentes ou que haviam
abandonado o emprego durante certo período de tempo. Diferentemente,
os programas de treinamento e a fixação de objetivos tinham de
longe maior impacto na produtividade do que os planos de pagamento
por desempenho.
PORQUE
AS RECOMPENSAS FALHAM
Porque a maioria dos executivos continua a confiar
nos programas de incentivos? Talvez seja porque poucas pessoas
têm tempo de examinar a relação entre os programas de incentivo
e os problemas com a produtividade, bem como com o moral em situação
de trabalho. As recompensas compram temporariamente a aceitação,
e, assim, parece que os problemas estão resolvidos. É mais
fácil colocar em evidência o dano que causam a longo prazo. Além
disso, não ocorre à maioria de nós suspeitar das recompensas,
uma vez que nossos próprios pais e administradores geralmente
as utilizam. “Faça isto e você conseguirá aquilo”
é parte integrante do estilo americano de vida. Finalmente, crer
que os problemas motivacionais devam ser atribuídos a um sistema
de incentivos particular, em vig6encia no momento, e não à teoria
psicológica subjacente deixa as pessoas certas de que um pequeno
ajuste será suficiente para reparar os danos.
Durante essa longa batalha, todavia, tentar uma
boa sintonia dos sistemas de recompensas acarretará u custo potencial
respeitável para qualquer organização. Os defeitos fundamentais
do behaviorismo em si arruinam as perspectivas de mudança comportamental
a longo prazo, ou de melhora do desempenho através do uso de recompensas.
Considere-se o seguinte referencial de seis pontos que examina
os verdadeiros custos de um programa de incentivos, a seguir.
AS
RECOMPENSAS NÃO
CRIAM
UM ENVOLVIMENTO
DURADOURO.
APENAS
MUDAM
TEMPORÁRIA E
MERAMENTE
AQUILO
QUE
SE FAZ.
O
SALÁRIO NÃO É UM MOTIVADOR
A
afirmação de W. Edward Deming pode parecer surpreendente e até
mesmo absurda. Na verdade, o dinheiro compra as coisas que as
pessoas querem e necessitam. Além disso, quanto menos as pessoas
recebem, mais se preocupam com aspectos financeiros. Realmente,
vários estudos ao longo destas últimas décadas descobriram que,
quando se pede às pessoas que adivinhem o que mais conta para
seus colegas de trabalho, supõem que o dinheiro encabece a lista.
Mas, formulando a questão de maneira direta - “Com o
que você se importa? “ - , o pagamento tipicamente era classificado
em sexto lugar.
Mesmo que as pessoas estejam principalmente preocupadas
com seus salários, isso não prova que o dinheiro seja motivador.
Não existem bases sólidas para a suposição de que pegar mais às
pessoas as encoraje a fazer um trabalho melhor, ou até mesmo,
a longo prazo, trabalhar mais. Como argumentou Frederick Herzberg,
notório professor de administração da Universidade de Utah, não
é porque pouco dinheiro irrita e desmotiva que mais dinheiro conseguirá
aumentar a satisfação, muito menos a motivação. É razoável supor
que, se o salário líquido de alguém for reduzido pela metade,
seu moral ficará prejudicado o suficiente para minar seu desempenho.
Mas não se deve concluir necessariamente daí que dobrar o pagamento
de uma pessoa possa resultar em melhor trabalho.
AS RECOMPENSAS PUNEM
Muitos
gerentes entendem que a coerção e o medo destroem a motivação
e criam resistência, defesa e raiva. Eles percebem que a administração
punitiva é, de certa forma, um absurdo. Herzberg escreveu na Harvard
Business Review, há mais de 20 anos, que tentar motivar funcionários
com um “empurrão” pode produzir movimento, mas nunca motivação.
PUNIÇÕES
E RECOMPENSAS SÃO,
NA VERDADE, OS DOIS LADOS
DE UMA MESMA MOEDA.
AMBAS TÊM EFEITO
PUNITIVO PORQUE SÃO
MANIPULADORES.
O
que a maioria dos executivos não consegue compreender é que a
observação de Herzberg é igualmente verdadeira quando se
trata das recompensas. As punições e as recompensas constituem
os dois lados de uma mesma moeda . A recompensa tem
efeito punitivo porque, tanto quanto a punição declarada, é manipuladora:
“Faça isto e você conseguirá aquilo” não é realmente
muito diferente de “Faça isto e eis o que acontecerá
a você”. No caso dos incentivos, a recompensa pode ser
altamente desejada; mas, tornando aquele prêmio contingente a
certos comportamento, os gerentes manipulam seus subordinados,
e a experiência de estar sendo controlado pode revestir-se de
uma qualidade punitiva em algum momento.
Além disso, não receber uma recompensa esperada
é a mesma coisa que ser punido. Se o incentivo é diminuído, ou
deliberadamente retirado, ou ainda simplesmente não recebido por
alguém que esperava alcança-lo, o efeito é idêntico. Assim, quanto
mais a recompensa é desejada, mais desmoralizadora é a sua falta.
A
nova escola, que nos exorta a recompensar as pessoas ao pegá-las
fazendo alguma coisa certa, não é muito diferente da velha escola,
que nos aconselhava, ao apanhar as pessoas fazendo algo de errado,
a ameaça-las com punição caso fizessem o mesmo novamente. O essencial,
e que se propõe em ambos os enfoques, é que muitas pessoas estão
sendo pagas. Os gerentes estão criando um ambiente de trabalho
no qual as pessoas se sentem controladas, não um ambiente que
leve à investigação, aprendizado e progresso.
AS RECOMPENSAS ROMPEM
OS RELACIONAMENTOS
Os relacionamentos entre os empregados são frequentemente
oportunidades de luta pelas recompensas. Como os líderes do movimento
da administração de Qualidade Total enfatizaram, os programas
de incentivos e os sistemas de avaliação do desempenho que os
acompanham reduzem as possibilidades de cooperação. Peter R. Scholtes,
consultor sênior da Joiner Associates, Inc. propôs enfaticamente
que “todos estão pressionando o sistema para ganhos individualizados.
Ninguém está desenvolvendo o sistema no sentido de ganhos coletivos.
O sistema vai inevitavelmente falir”. Sem trabalho em
equipe, em outras palavras, não pode haver qualidade.
A
maneira mais segura de destruir a cooperação e, portanto, a excelência
organizacional é forçar as pessoas a competirem por recompensas
ou reconhecimento, ou ainda classificá-las comparando umas em
detrimento das outras. Isso porque, para cada pessoa que ganha,
muitas outras acabam ficando com sentimento de derrota. Assim,
quanto mais esses prêmios são exibidos por meio de memorandos,
jornais e banquetes de premiação, mais nocivo se torna seu
impacto. Além do mais, quando os empregados competem entre si
por um limitado número de incentivos, mais estarão prontos a começar
a ver um ao outro como obstáculo ao seu próprio sucesso.
E o mesmo resultado pode advir com o uso de qualquer tipo de recompensas:
introduzir a competição apenas torna as coisas ainda piores.
O
relacionamento entre supervisores e subordinados também pode piorar
sob o peso dos incentivos. É lógico que o supervisor que pune
é tão agradável aos empregados como a visão de um carro de polícia
pelo espelho retrovisor. Porém, mesmo o supervisor que premia
pode produzir algumas reações danosas. Por exemplo, os empregados
podem ser tentados a ocultar quaisquer problemas que possam estar
tendo e se mostrar absolutamente competentes ao gerente que controla
o dinheiro. Em lugar de pedir ajuda - um pré-requisito para o
ótimo desempenho - , podem optar pela bajulação, esforçando-se
por convencer o gerente de que possuem tudo sob controle. Nada
ameaça tanto uma organização como uma porção de indivíduos,
orientados para o incentivo, tentando lisonjear aquele que distribui
esse incentivo.
AS
RECOMPENSAS IGNORAM AS RAZÕES
Para resolver os problemas no trabalho, os gerentes
precisam compreender aquilo que os causou. Estarão os empregados
inadequadamente preparados para as necessidades dos seus cargos
? Será que o crescimento a longo prazo não está sendo sacrificado
para maximizar o retorno a curto prazo ? Será que os trabalhadores
são incapazes de colaborar eficazmente ? Não será a organização
tão hierarquicamente rígida que os empregados se intimidam em
fazer recomendações, sentindo-se impotentes e desgastados ?
Cada uma dessas situações pede uma resposta diferente. Mas apoiar-se
nos incentivos para aumentar a produtividade em nada ajuda no
sentido de identificar os possíveis problemas subjacentes e propor
mudanças significativas.
Além disso, os gerentes freqüentemente usam sistemas
de incentivos como um substituto para dar aos trabalhadores aquilo
de que necessitam para fazerem um bom trabalho. Tratar bem os
trabalhadores - oferecendo-lhes um feedback útil,
apoio social e espaço para autodeterminação - é a essência da
boa administração. Por outro lado, brandir um prêmio no nariz
do empregado e esperar pelos resultados requer muito menos esforço.
Realmente, há provas de que as estratégias gerenciais produtivas
são menos usadas nas organizações que se apóiam em planos de pagamento
por desempenho. No seu estudo sobre o desempenho dos soldadores,
Rothe notou que os supervisores tendiam a “demonstrar relativamente
menor liderança” quando os incentivos estavam em ação. Da
mesma forma, a autora Carla O’Dell relata em People, performance
and pay que uma pesquisa em 1.600 organizações, feita pelo American
Productivity Center, pouco descobriu sobre a forma do envolvimento
dos empregados nas organizações que usavam planos de incentivos
em pequenos grupos. Como Jone L. Pearce, professor associado da
escola de Administração da Universidade da Califórnia, em Irvine,
escreveu em “Why merit pay doesn’t work: implications
from organization theory”, o pagamento por desempenho realmente
“impede a habilidade dos gerentes de administrar”.
O
RELACIONAMENTO ENTRE
SUPERVISORES
E
SUBORDINADOS
TAMBÉM
PODE
PIORAR SOB O PESO
DOS
INCENTIVOS.
AS
RECOMPENSAS DESENCORAJAM ASSUMIR RISCOS
“As pessoas farão precisamente aquilo que são solicitadas
a fazer, caso as recompensas sejam significativas”,
afirmou entusiasticamente Monroe J. Haegele, um defensor dos programas
de pagamento por desempenho, em “The new performance measures”.
Eis a origem do problema. Sempre que as pessoas são encorajadas
a pensar naquilo que conseguirão por engajar-se na tarefa, tornam-se
menos inclinadas a assumir riscos ou explorar possibilidades,
a arriscar palpites ou considerar estímulos causais. Em uma palavra,
a vítima número um das recompensas é a criatividade.
A
busca da excelência leva numa direção; as recompensas, em outra.
Diga às pessoas que aquilo que recebem dependerá da avaliação
de sua produtividade ou desempenho, e elas se concentrarão nos
números. Por vezes manipularão a programação para completar tarefas,
ou até mesmo se engajarão em ações claramente antiéticas ou ilegais.
Como Thane S. Pittman, professor e catedrático dp departamento
de psicologia do Gettysburg College, e seus colegas apontaram,
quando se está motivado por incentivos, “aspectos tais
como previsibilidade e simplicidade são desejáveis, desde que
o principal foco associado a essa orientação seja cumprir a tarefa
como um recurso para conseguir chegar ao objetivo desejado”.
Um antigo professor da Cornell University, John Condry,
foi mais sucinto: “As recompensas, disse ele,
“são os inimigos das descobertas”.
Consideram-se as descobertas do psicólogo organizacional
Edwin A . Locke. Quando Locke pagou pessoas com base na
remuneração por peça, em seu trabalho, notou que tendiam a escolher
as tarefas mais fáceis, à medida que o pagamento pelo sucesso
aumentava. Alguns outros estudos também descobriram que as pessoas
que trabalhavam por recompensas geralmente tentavam minimizar
o desafio. Não que os seres humanos sejam naturalmente preguiçosos
ou que não seja aconselhável dar aos empregados autonomia para
que determinem os padrões a serem usados. Pelo contrário, as pessoas
tendem a baixar seus alvos quando são encorajadas a pensar naquilo
que vão conseguir ganhar por seus esforços. “Faça isto e você
conseguirá aquilo”, em outras palavras, focalize a atenção
no “aquilo” em lugar do “isto” .
Enfatizar grandes prêmios é a última estratégia que se deveria
usar quando se dá importância à inovação. Será que as recompensas
motivam as pessoas ? Absolutamente não. Elas motivam as pessoas
a conseguir recompensas.
AS
RECOMPENSAS CORROEM O INTERESSE
Caso
o objetivo seja a excelência, nenhum incentivo artificial pode
estar à altura do poder da motivação intrínseca. As pessoas que
fazem um trabalho excepcional podem ficar contentes em ser pagas
e mais contentes ainda em ser bem pagas, mas não trabalham para
receber pagamento. Trabalham porque amam aquilo que fazem.
Poucos ficarão chocados com a notícia de que os
motivadores extrínsecos são um pobre substituto do interesse genuíno
pelo trabalho. De longe, o mais surpreendente é que as recompensas,
assim como a punição, podem realmente corroer a motivação intrínseca
que resulta em desempenho ótimo. Quanto mais um gerente enfatizar
o que um empregado pode ganhar por um bom trabalho, menos interessado
estará no trabalho em si.
Os primeiros estudos a estabelecer o efeito das
recompensas sobre a motivação intrínseca foram conduzidos no início
dos anos 70 por Eward Deci, professor e catedrático do departamento
de psicologia da Universidade de Rochester. Até hoje, os resultados
dos experimentos feitos pelo país afora têm confirmado essas descobertas.
Como Deci e seu colega Richard Ryan, vice-presidente sênior de
investimento e gerente de treinamento da Robert W. Baird &
Co., Inc., escreveram no seu livro Intrinsec
motivation and self-determination in human behavior (1985),
“a pesquisa tem mostrado consistentemente que qualquer sistema
contingente de pagamento tende a corroer a motivação intrínseca.
O efeito básico é o mesmo para uma variedade de recompensas e
tarefas, embora os motivadores extrínsecos sejam particularmente
destrutivos quando ligados a tarefas interessantes ou complicadas”.
Deci e Ryan argumentam que receber uma recompensa
por um comportamento particular vale como uma certa mensagem sobre
o que foi feito e controla ou tenta controlar o futuro comportamento.
Quanto mais se é controlado, mais se tenderá a perder o interesse
por aquilo que se está fazendo. Caso se vá ao trabalho pensando
na possibilidade de conseguir um prêmio, passa-se a sentir que
o próprio trabalho não está sendo autodirigido. Em lugar disso,
é a recompensa que impulsiona o comportamento.
Outros teóricos defendem uma explicação mais simples
para o efeito negativo que as recompensas têm cobre a motivação
intrínseca: qualquer coisa apresentada como pré-requisito
para outra coisa - quer dizer, como um meio para se chegar a outro
fim - acaba sendo vista como menos desejável. Quem recebe a recompensa
supõe que, “se precisam me subornar para fazer isto,
é porque deve ser alguma coisa que eu não gostaria de fazer”.
Realmente, uma série de estudos publicados em 1992 pelo professor
de psicologia Jonathan L. Freedman e seus colegas da Universidade
de Toronto confirmaram que, quanto maior o incentivo oferecido,
mais negativamente será vista a atividade pela qual o bônus foi
recebido. (As atividades em si mesmas parecem não importar: neste
estudo foram classificadas desde tarefas como participar de um
experimento médico até comer uma comida não familiar.) Seja
qual for a razão para esse efeito, todavia, qualquer sistema de
incentivo ou pagamento por desempenho tende a tornar as pessoas
menos entusiasmadas com relação a seu trabalho e, portanto, menos
inclinadas a abordá-lo com o compromisso pela excelência.
SUPOSIÇÕES
PERIGOSAS
Fora dos departamentos de psicologia, poucas pessoas
fazem distinção entre motivação intrínseca e extrínseca. Há aqueles
que consideram que esses dois conceitos simplesmente [podem ser
somados para um melhor efeito. A motivação aparece com dois sabores
e, diz a lógica, os dois juntos devem ser melhores do que sozinhos.
Mas os estudos mostram que o mundo funciona diferentemente.
Alguns gerentes insistem que o único problema existente
com os programas de incentivo é que eles não recompensam as coisas
certas. Mas esses gerentes não compreendem os fatores psicológicos
envolvidos e, conseqüentemente, os riscos em ater-se ao status
quo.
Contrariamente à sabedoria convencional, o uso
de recompensas não é uma resposta à orientação extrínseca exibida
por muitos trabalhadores. Ao contrário, os incentivos ajudam a
criar esse ponto de interesse pelas considerações financeiras.
Quando uma organização usa administração skinneriana ou
sistema de compensação, as pessoas estão prontas a se tornarem
menos interessadas em seu trabalho, precisando de incentivos extrínsecos
antes de despender esforço. Nesse momento, os supervisores balançam
a cabeça e dizem: “Você viu? Se não oferecer a eles recompensa,
não farão nada”. Essa é a clássica profecia da auto-realização.
A
PREMIAÇÃO
EXTRÍNSECA
FAZ
EVAPORAR
A MOTIVAÇÃO
INTRÍNSECA.
O
professor de psicologia Barry Scwartz, do Swarthmore College,
admitiu que a teoria comportamental pode parecer nos proporcionar
uma maneira útil de descrever aquilo que acontece nas empresas
americanas. Todavia, “ela faz isso não
porque o trabalho seja um exemplo natural dos princípios da teoria
comportamental, mas porque os princípios da teoria comportamental.
. . tiveram um papel significativo em transformar
o trabalho num exemplo dos princípios da teoria comportamental”.
Os gerentes que insistem que o trabalho não seria
bem feito sem as recompensas deixam de oferecer um argumento convincente
à manipulação comportamental. Prometer uma recompensa a alguém
que parece desmotivado é um pouco como oferecer água salgada a
quem tem sede. Suborno em situação de trabalho simplesmente não
pode funcionar.
(*) Este artigo da Harvard Business Review, edição de setembro-outubro
de 1993, de Alfle Kohn, foi originalmente publicado sob o título
“Why incentive plans cannot work”.
Copyright© 1993 pelo President and Fellows of Harvard
College.
Texto
revisto e adaptado por Hamilton Bueno
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